Digital Evolution

Evolução digital: reavaliar e desaprender como parte do caminho

Por: Bill Coutinho, novembro 4, 2020

Métodos ágeis dão às organizações digitalmente transformadas força para evoluir, mas o caminho passa por reavaliação constante de objetivos e pela capacidade de (des)aprender com novos players.

Ser ágil e ser rápido são capacidades diferentes. Os dois termos são muito confundidos nesses tempos de inovação acelerada, mas enquanto o segundo tem relação com rapidez, velocidade, o primeiro diz muito mais sobre mudar de direção, saber se adaptar, reduzir a inércia, reagir ao imprevisível. Por isso a agilidade é tão importante para aquelas organizações que desejam não apenas se transformarem, mas evoluírem digitalmente.

É disso que se trata o conceito de Evolução Digital, que discuti algum tempo atrás neste artigo. E por isso as metodologias ágeis são tão relevantes: fornecem as ferramentas que tornam as organizações capazes de reagir às mudanças de direção do mercado. Abrangem desde a forma de escrever códigos e conceber produtos digitais até a forma de gerir uma empresa.

Neste último caso, as metodologias ágeis jogam luz sobre o caminho que leva aos objetivos estratégicos, mas verificando e reavaliando sua validade com frequência, ou seja, se ainda são válidos ou precisam de mudanças. Assim os objetivos passam a ser construídos o tempo todo, não definidos rigidamente com anos de antecedência.

Uma ferramenta que torna isso possível é o OKR – do inglês objectives and key results (objetivos e resultados-chave, em tradução livre). Com ela o negócio se torna capaz de olhar para o que está acontecendo no momento e criar cenários de futuro possíveis. E, claro, que passos são necessários para o negócio fazer parte desse futuro.

É uma visão bastante abrangente, mas cada ação decorrente precisa ser pequena. Um passo de cada vez. Os resultados precisam ser avaliados continuamente e, depois disso, essa visão de futuro ainda precisa estar viva.

Passamos por isso recentemente na Dextra. Tínhamos uma visão de futuro que incluía uma série de escritórios físicos espalhados pelo Brasil e o mundo, com características uniformes. A pandemia colocou essa visão em xeque quando praticamente todos os funcionários passaram a trabalhar remotamente. Então nossa visão de futuro precisou ser revista. Outras porém, como “ser a melhor empresa de desenvolvimento de software do Brasil” e “a mais desejada para trabalhar pelos profissionais de TI” prosseguem.

Resumindo, os OKRs são uma ferramenta para levar agilidade à gestão do negócio e parte do caminho para evoluir digitalmente. Não é só questão de sobrevivência, mas de crescimento, mantendo posicionamentos relevantes em qualquer ambiente e diante de quaisquer mudanças. Apenas enxugar custos em um modelo de gestão tradicional muito focado em eficiência não é mais suficiente para resistir.

Diversidade e ‘coach reverso’

Obviamente nem todas as organizações conseguirão evoluir. Algumas não aceitarão a necessidade de um novo modelo e a necessidade de agir diferente. Outras serão incapazes de desaprender, ou seja, deixar de lado os modos de fazer que desenvolveram durante anos, décadas, e que lograram sucesso em algum ponto do passado. Mas o caminho está aberto para aquelas que estiverem abertas à mudança.

Para indústrias mais tradicionais, essa adaptação passa por uma espécie de “coach reverso”, em que ao invés de alguém mais experiente transferindo conhecimento, teríamos empresas novatas “ensinando”. Se normalmente uma organização contrata fornecedores altamente especializados em seu segmento de mercado, por que não alguém diferente?

Um banco, por exemplo, precisa contratar fornecedores que tudo saibam sobre o mercado financeiro? Ele estaria contratando mais do mesmo. Alguém diferente seria capaz de dar uma nova perspectiva sobre o negócio e ajudar na transformação. São justamente as pessoas que não têm o “cacoete” do setor que farão as perguntas escondidas, aquelas que ninguém nunca fez e trarão inovação de fato. Por isso a importância da diversidade.

É claro que boa parte dos executivos de todos os setores sabem que a mudança é urgente, mas muitas vezes ainda falta a coragem de realmente inovar. Afinal, eles terão que sair da posição de detentores do conhecimento e se fragilizarem para, só assim, reaprender. Abrir o flanco para criar inovação.
Sem isso ninguém se torna ágil, nem se adapta, nem evolui.

 

* Bill Coutinho é sócio-diretor da Dextra

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